Marcelo Dravio
Foi aos sete ou oito anos de idade que descobri que eu era diferente dos demais garotos ao meu redor, mas o fato de preferir sempre a companhia das garotas ainda não tinha sido encarado como um diferencial.
Uma vez, quando eu e minha mãe estávamos no pátio da escola, ela me perguntou se eu tinha alguma novidade, e eu prontamente respondi-lhe que havia um rapaz muito bonito na sala de aula naquele dia (um desses estagiários com certeza). Ela me olhou assustada e disse que um homem não achava outro homem bonito e que não deveria repetir mais aquilo, principalmente na presença do meu pai (com quem, aliás, nunca me dei bem!). Inocentemente perguntei o porquê e recebi apenas um "porque sim".
O período da infância me pareceu a fase mais longa da minha vida. Suportei as brincadeiras mais odiosas que um garoto como eu poderia suportar. Meus colegas não me pouparam de nenhuma forma, humilhado-me reservadamente ou em público. Na saída da escola, quase que religiosamente, lá estava eu aos socos e pontapés com um deles. A violência física que sofri não me deixou traumas ou seqüelas, mas a violência psicológica talvez tenha me deixado um pouco mudado em relação à pessoa que eu hoje provavelmente seria. Mudei de escola, de colegas e um pouco meu comportamento. Até a minha adolescência os mesmos garotos continuaram a me perseguir, mas o engraçado é que não percebi quando exatamente deixaram de fazer parte da minha vida. O importante é que sempre me sai bem das situações ruins em que eles me colocavam.
No começo da minha adolescência as coisas realmente começaram a me deixar confuso. Fui me afastando das pessoas e construindo meu mundo, não como a maioria dos adolescentes faz, mas como um tipo de adolescente especial fez. Passava horas escrevendo cartas para anúncios de revistinhas (tinha uma idéia de que dessa forma acabaria encontrando um amigo que fosse como eu).
Meu pai e eu vivíamos como cão e gato, ele jamais havia gostado de mim como dos meus irmãos e me disse isso uma vez. Chegamos várias vezes às vias de fato, mas acredite, ainda hoje não acho que o motivo daquilo tudo fosse a desconfiança de ser eu gay ou não. Minha mãe começou a me infernizar a vida por causa das cartas de rapazes que comecei a receber, e acho que foi nesse período que as brigas e insinuações a meu respeito começaram a aumentar.
O primeiro lugar GLS que fui tinha o nome de Zoë (descobri um tempo depois que significava vida em grego), uma espécie de restaurante-bar, com uma minúscula pista de dança na parte inferior do imóvel. O lugar estava cheio de gente que ao mesmo tempo me parecia familiar e/ou muito estranha. Fiquei muito tempo só observando, queria me sentir identificado com alguém. Quando fui até a pista de dança vi pela primeira vez em minha vida dois homens se beijando, meu coração começou a acelerar. Naquela noite dancei muito, como jamais pensei que soubesse. Ao chegar em casa pela manhã, tentei dormir, mas estava tão excitado com tudo que havia visto ou sentido que não consegui fechar os olhos. As imagens de um mundo com o qual havia desejado estavam passeando pela minha cabeça, senti certa tristeza por não ter ninguém para dividir o que estava descobrindo, mas se tinha de ser assim então que fosse. Saí e conheci outras casas noturnas, mas com o tempo acabei me cansando de baladas.
O colégio, os colegas de classe, os vizinhos e minha família me cobravam alguém, e isso ficava cada vez mais complicado e chato. Estava com 17 anos quando numa das brigas com minha mãe acabei dizendo que ela jamais iria me ver com uma garota. Ela ficou espantada com o que havia ouvido e pareceu ignorar minhas palavras. Comecei a ficar ainda mais caseiro, os meus prazeres eram ficar lendo ou ouvindo MPB no radio. Sair só muito raramente. Estava trabalhando e tinha outras coisas com que me preocupar. Num sábado de trabalho, dois colegas de serviço estavam conversando a respeito de rapazes gays que conheciam e num ímpeto maior falei que se quisessem saber qualquer coisa poderiam me perguntar. Foi a primeira vez que disse claramente para pessoas que não eram amigos que era gay. Mas até então era diferente, estava seguro de mim e de meus desejos. Senti sair de minhas costas um peso enorme. Ficamos debatendo o assunto durante horas, depois disso não neguei para mais ninguém o fato de ser um rapaz homossexual. Perdi e ganhei amigos com isso, mas nunca me arrependi de dizer claramente o que sentia ou pensava. Minha mãe chorou um pouco no começo, mas aceitou muito bem. Meus irmãos ficaram mais meus amigos. Já meu pai e eu continuamos a não nos dar bem.
Foi numa casa noturna que conheci o Geraldo, quando descia para a pista de dança, passando por um estreito e pequeno corredor, notei um rapaz a me observar. Fiquei gelado. Apesar de ser bem mais baixo do que eu, senti-me atraído por ele. Nos aproximamos e ao tentar beijar-me avisei-lhe que aquele seria o meu primeiro beijo (simplesmente ainda não havia acontecido até aquele instante), acho que não acreditou. Foi o melhor beijo de toda a minha vida. Meu coração batia forte, minhas pernas tremiam e minhas mãos suavam. Ficamos juntos a noite inteira. Conversamos sobre tudo. Foi meu primeiro em tudo. Mas infelizmente, depois de algum tempo houve um desencontro e como não tínhamos trocado telefone ou endereço não nos vimos mais. No início foi horrível, me senti rejeitado. Mas tudo passa... Aprendi.
Depois de algum tempo resolvi me engajar em alguma coisa mais séria, sempre havia pensado em participar de algum grupo de militância gay! Foi lendo uma revista de jornal no domingo que descobri um grupo novo pelo qual me interessei. Era o Grupo Ação. No começo foi difícil colocar alguma posição minha, pois eles eram um pouco mais velhos e mais experientes do que eu. Mas ficamos amigos. Foi naquele grupo que conheci as primeiras mulheres lésbicas. Participei de muitas coisas através do grupo. Fui a debates, festivais de cinema (como o Festival Mix Brasil), fui a passeatas de orgulho, fiz panfletagem, ajudei a recolher assinaturas para abaixo-assinados e tive meus quinze minutos de fama no extinto Programa H apresentado na época pelo Luciano Huck. Foi ótimo como experiência, mas não durou muito. O grupo se desfez em menos de dois anos de atividade. Mas nesse meio tempo conheci muita gente.
Hoje estou com 26 anos e me considero incrivelmente sortudo por não precisar fingir ser alguém que não sou. Todos que conheço sabem que sou gay e me respeitam. Sou quem eu sou em casa com a família, na rua com os amigos/vizinhos e com os colegas de trabalho. Se eu fui capaz de conseguir esse meu espaço não vejo motivos para todos também não conseguirem. O preconceito só existe porque deixamos ele existir, tenho certeza que um dia ele desaparecerá quando todos nós tivermos coragem para mostrarmos quem realmente somos.