Jonatas Vianna

18/06/2010 01:38

Sempre vivi em eternos conflitos em perceber que sou diferente dos outros, sempre fui meio isolado e ao mesmo tempo rodeado de pessoas. Eu carregava um fardo muito pesado por ser filho de pastor e sempre tive as questões religiosas muito impregnadas em mim.

Aos 12 anos me batizei na igreja e meu pai já exercia a função pastoral, com 12 anos eu beijei o primeiro menino da minha vida e isso gerou meu maior conflito que durou até os 15 anos, onde eu percebi que não era fase, nem curiosidade, nem coisa da minha cabeça: eu, filho de pastor, era gay.

Descobrir-me gay foi uma experiência maravilhosa ao perceber em mim uma capacidade única de amar de verdade, pois eu estava aprendendo a me amar, compreendendo a mim mesmo e assim podendo compreender os outros e amá-los.

Meus pais

Refugiados em seus mundos espirituais, meus pais sempre fizeram vista grossa. No começo de minha adolescência eles presenciaram várias vezes, no histórico do computador, imagens de homens, entradas em chats. Nunca se questionaram porque tantos garotos ligavam em casa atrás de mim, alguns deles com um timbre de voz “meio estranho”. Por que eu tinha amigos gays? Um dia meu pai me pegou dentro de uma boate gay! Explicações e truques sempre adiaram a verdade.

Até que um dia, vendo seus ministérios entrarem em jogo (out-2002), meus pais me colocaram no psicólogo de “sexualidade”, daqueles que fazem “a cura”, e tudo o que ele pode dizer após seis meses é que eu me conhecia muito bem, me conhecia dentro da homossexualidade e estava equilibrado dentro dela. Aproveitei essa oportunidade para resolver meu passado, meu abuso. Porém, em sua infinita ética, ele revelou ao meu pai – um dia antes da véspera de natal! (23-12-02) – a verdade que meu pai sempre soube, mas que nunca quis enxergar.

No dia 17 de janeiro de 2003, meu pai tomou coragem e quis conversar sobre isso.

Perplexo com minha naturalidade sobre o assunto e com o fato de ter sido o último “a saber”, ele entrou numa crise que dura até hoje. Efetuou todos os tipos de bloqueios imagináveis para um convívio social. Minha mãe, bem como meu pai, foram bem agressivos no começo. Hoje em dia estão um pouco mais estáveis, desgastados, mas sempre tendo seus ataques de histeria e agressões verbais. Não aceitam de forma alguma. Não querem saber sobre o assunto. Estão entre o filho e o dogma.Querem uma aproximação, mas exigem minha mudança.

Sei que estou passando por uma fase muito difícil e ninguém sabe como eu tenho suportado tudo isso... Ser filho de pastor não é fácil. Ser gay também não. Mas dizer a verdade me libertou pra ser quem sou: sincero. Não minto mais. Não alimento mais desejos e esperanças de coisas que não irão acontecer. Acredito que de forma homeopática o amor e o tempo trarão a cura pra minha família.

Amigos

Hoje todo mundo sabe sobre minha sexualidade. É claro que muitos se afastaram, me magoei muito, mas alguns provaram gostar de mim pelo que sou e não por ser igual ou diferente. Assim que entrei na faculdade, no segundo mês de aula tive um trabalho de sociologia onde eu deveria falar sobre quem sofreu com o nazismo. Fiz um monólogo sobre isso de 30 min, com um texto maravilhoso, intercalado com imagens e música em um telão, enfatizando no final um homossexual desabafando. Não teve quem não chorou e quem não ligou a minha imagem à do personagem. Este trabalho me rendeu apresentações para outras classes, outros cursos, outra faculdade e até o cursinho do Objetivo. Não demorou para eu ser popular, respeitadíssimo e muito bem aceito - de coração por todos os garotos e garotas da minha classe. Eles vêm aqui em casa, eu vou na casa deles, me convidam pro futebol – mesmo sem eu jogar nada. Vamos pra balada. É show!

Tenho amigos gays também, é claro, com quem saio alguns finais de semana, me divirto com conversas engraçadíssimas e troco experiências que me acrescentam bastante.

Tenho cultivado uma amizade linda com uma garota, nos amamos muito, ela não é lésbica, mas também tem seus problemas. Nos apoiamos mutuamente. Sabemos que temos um porto seguro, principalmente após sermos feridos em nossas frágeis vidas amorosas.

Para pais de gays e lésbicas

Eu sei dos sonhos e expectativas que um pai tem. Não sou pai, mas vejo como meus pais hoje tem sofrido. Não pensem, como meus pais, que é uma escolha. Simplesmente acordamos um dia e descobrimos que gostamos de forma diferente. Não nos culpe, não é necessário, já nos culpamos muito. Não nos magoe, a própria sociedade tem se encarregado disso... Não se envergonhem, nós mesmos ainda temos vergonha de ser quem somos. Não deixem de ser amáveis conosco, nós mesmo não nos amamos às vezes...

sair do armário é apenas o final de um processo de muita dor e conflito, de muitas coisas que queríamos dizer e não sabíamos como. De muitas lágrimas derramadas em secreto. De muitos gritos abafados. Ansiamos por sermos compreendidos e não mudados. Procuramos desesperadamente carinho e apoio e não mais aliados aos outros, ao preconceito. Queremos muito sentir esse amor que vocês falaram a nossa vida toda, aquele que perdoa e supera tudo. Não vejam isso como “travessura”, não nos castigue (ainda mais). Somos assim, queremos que seu orgulho por nós seja sincero, que este orgulho seja por quem somos e não pelo que fazemos. Queremos apenas ser feliz e fazer com que vocês, pais, participem desta felicidade.

Sociedade e preconceito

Em todos os colégios que passei, sempre tive uma certa popularidade por algumas coisas, redações, teatros e muito humor. Mas infelizmente com 16 anos, por descuido de informação, e por causa da minha popularidade, não demorou muito para o colégio saber que eu era gay. Apanhei muito, meu material foi quebrado várias vezes e jogado pela janela, fui humilhado, fui excluído, eu era nada... Meu drama durou até os 17 anos quando passei na faculdade.

Acredito que a ignorância gera o preconceito. A total falta de informação faz com que muitos colégios se omitam no "Bullying" e muitas vezes apóiem o preconceito: “é você quem precisa mudar!”. As igrejas perdem fiéis gays por causa do mau uso dos dogmas, que acabam virando preconceito. Se cada um sair do armário, sem ficar 24h expondo a própria sexualidade, as pessoas perceberam que existem todos os tipos de gays, assim como existem todos os tipos de hétero, e que a diferença é apenas externa, o amor é universal.
Com o tempo, perceberão, como nós, que não é um homem e uma mulher que se casam, não é um homem e uma mulher que se beijam na rua, mas sim duas pessoas que se gostam.

Para os brothers

Não deixe de se amar por ser gay, entenda que gostar de alguém é uma grande virtude e não um defeito. sair do armário é você conectar seu mundo no universo, é você deixar de ser morto, anônimo e anulado para viver e respirar livremente. Não pense que Deus é um grande julgador como as pessoas que falam dele pra você. Deus é o próprio amor vivo, Ele te ama e te aceita exatamente como você é, com todos os seus defeitos e qualidades. Deus está interessado no seu coração e nas motivações dele, é isso que importa. Ele sabe que você por si só não pode mudar seus erros (não digo que erro é a homossexualidade), por isso Ele põe a disposição o Espírito Santo para que te ensine todas as coisas e te guie.

A maior prova de que você ama e aceita a si mesmo é quando você é capaz de amar e compreender ao outro mesmo que ele tenha tantas limitações.